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O engodo da meia-entrada para estudantes

  • 4 de jan. de 2015
  • 3 min de leitura

No Brasil é assim: ou você é estudante, e aí tem o benefício de pagar meia em eventos culturais; ou não é estudante, e paga inteira nos eventos. Ah, tem um terceiro tipo: quem não é estudante mas também paga meia, porque tem uma carteirinha falsificada. Partindo do princípio de que esse último tipo não está interessado em argumentação ou justiça, esse artigo é dirigido apenas aos dois primeiros: o estudante e o não-estudante-honesto.

A primeira questão: estudante, você não paga meia quando paga meia. Os produtores culturais têm que fazer um cálculo para pagar custos e gerar algum lucro, considerando inteiras e meias. Assim, o preço do ingresso de uma peça teatral, por exemplo, é definido a partir de estimativas de capacidade do teatro e de presença do público, e o valor dos ingressos é consequência disso. Se uma peça precisa gerar R$ 3.000 para pagar custos e espera-se mais R$ 3.000 de lucro, a bilheteria tem que gerar R$ 6.000. Se cabem 200 pessoas no teatro e espera-se casa cheia, o ingresso médio tem que custar R$ 30. Então define-se R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), estimando-se uma presença "meio a meio" de estudantes e não-estudantes. Na prática, o não-estudante paga mais do que o valor "justo" do ingresso (R$ 30), subsidiando o benefício do estudante. Ou seja: a benesse criada pela lei, pelo Estado, não é bancada pelo Estado, e sim pela parte do público não beneficiada por ela. É o famoso "fazer cortesia com o chapéu alheio".

"Mas ainda estou pagando menos que o ingresso médio", pensa o estudante. "É vantagem!" Não se você pensar que vai passar muito mais tempo de sua vida como não-estudante. É só fazer as contas aí. O brasileiro com nível superior estuda durante 16 ou 17 anos, e vive mais de 70 anos. Vale mesmo a pena receber o benefício agora - e pagar por isso por muito mais tempo?

Portanto, a lei da meia-entrada para estudantes é ruim para todo mundo! Inclusive para os produtores culturais, que têm que fazer gambiarras para atrair o prejudicado não-estudante, criando promoções para driblar a lei, como "preço único promocional para o 1º lote", ou "apresente este folheto e ganhe desconto na inteira", ou "doe 1 kg de alimento e pague meia". Não houvesse a lei, nada disso seria necessário.

Para não dizer que ninguém ganha com a lei: sim, há quem ganhe. Quem ganha dinheiro emitindo carteiras falsas não tem do que reclamar.

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A segunda questão é: por que conceder esse benefício à categoria chamada ESTUDANTES? Aparentemente, na origem da lei, considerou-se que estudantes são pessoas sem renda própria, portanto sem recursos para consumir bens culturais. Então, parece justo que recebam um estímulo para esse consumo, certo? Não. Primeiro: nem todo estudante não tem renda; muitos trabalham. Segundo: nem todo estudante que não tem renda própria não tem condições de consumir cultura, porque são de classes mais abastadas, recebem inclusive mesadas. Terceiro: independentemente da classe sócio-econômica, se parte-se do princípio de que são os pais que sustentam os filhos estudantes, a lei da meia-entrada, ao mesmo tempo em que facilita ao pai pagar o cinema do filho, dificulta o acesso a esse mesmo pai, pois gera o encarecimento do seu ingresso. Pergunta: esse pai trabalhador tem menos direito ao acesso à cultura do que o filho estudante? (Em tempo: quando falo "pai", quero dizer "pai ou mãe" - antes que xiitas do politicamente-feministamente correto venham me questionar.)

Ainda dentro do questionamento da concessão do benefício a estudantes: por que só estudantes? Donas de casa também não têm renda própria. Desempregados também não. Moradores de rua também não. Por que não recebem o benefício? E mais: ter renda própria não significa ter condições de frequentar um teatro. Basta pensar em chefes de família que recebem salário mínimo e todas as despesas que têm que arcar.

Então, se fosse para haver favorecidos no acesso a bens culturais, que fosse pelo critério de renda, não de "categoria profissional". Mas ainda assim sou contra, porque sempre se chegará na mesma situação: o custo do benefício será sustentado pelos não beneficiados, nunca pelo Estado. E da mesma forma que o Estado pensa em favorecer "desprovidos", é preciso ter cuidado para não prejudicar os "providos". Caso contrário, o país estará, também no âmbito da cultura, penalizando quem conseguiu prosperar, e isso definitivamente não é justiça.

Isso posto, e retornando ao tema "meia entrada para estudantes", é uma pena pensar que esta é uma lei que dificilmente irá cair. Afinal, qual deputado quer carregar o ônus de propor o fim de um aparente benefício, levando com isso a antipatia de tantos jovens eleitores? Infelizmente, os políticos, assim como muitos estudantes, só conseguem enxergar o hoje.

João Basílio | Comediante BH

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